Da Web para o Papel – Parte 1
Oi pessoal,
tudo bem?
Tenho descoberto e pensado em coisas legais enquanto adapto o material do blog para o papel. Pensei em criar alguns posts durante esse período de concepção do livro para trocar idéias com leitores e outras pessoas que curtem fazer quadrinhos sobre esta experiência de sair da web pro papel.
Para a primeira parte, queria falar um pouco sobre como tem sido o processo de diagramação e discutir, olhando o trabalho de outros autores, como um trabalho feito pra web pode se encaixar, sem grandes problemas, em um projeto para o papel – contanto que haja algum planejamento prévio.
1 – A questão do formato – Como fazer algo pra web que seja bem lido no papel?
O formato sempre carrega uma contradição inerente. Ao mesmo tempo que limita e fecha algumas possibilidades, ele foca teu olhar e tuas decisões para um universo dentro do qual você pode viajar a vontade. Quando comecei a fazer quadrinhos, tinha um pouco de dúvidas sobre o desdobramento deles na web – Seriam lidos confortavelmente? Onde e como seriam lidos? Tablets, celulares, kindles, monitores? Daria para viver de quadrinhos na web?
Havia também a questão maior que era se essas histórias publicadas seriam lidas, compartilhadas e de que forma tais histórias deveriam se apropriar das possibilidades da web e das ferramentas digitais. Em parte, o aparecimento de uma “cultura de internet” nos últimos anos tem matado algumas dessas dúvidas e começa-se a perceber com mais clareza quais formatos funcionam bem e quais não funcionam.
Em 2007, ao perceber que havia milhares de fatores possíveis para se criar uma história pra web (histórias multi-lineares, hqs com animação no meio, textos com balões pulantes e etc) e milhares de linguagens e plataformas (html, flash, etc) optei por ser mais conservador. Pensei num formato que funcionaria bem pra web e pro papel, pro caso de ter vontade de criar um livro mais tarde. E pensei num formato que não encontrasse barreiras nos diferentes dispositivos de leituras – se você faz um quadrinho em flash, ele simplesmente não será lido num ipad ou iphone. Escolhi o bom e velho jpeg aplicado num html e limitei o tamanho dos quadros a alguns módulos proporcionais.
E o que foi uma escolha meio intuitiva/arriscada na época se mostrou algo que tem facilitado bastante meu trabalho agora na diagramação. Vejamos porque:
a) Os quadros no meu blog possuem tamanhos proporcionais, modulares. Assim, o que eu faço quando quero quadros maiores é agrupar um quadro simples no outro. Esse tipo de limitação torna, as vezes, o ritmo de leitura um pouco repetitivo e cansativo, mas acelera bastante a produção. Simplesmente porque você não precisa pensar demais num layout de página agradável ou se tal quadrinho merece ter 13cmX16cm ou 22×13 ou qualquer proporção aleatória.
A limitação agiliza a escolha: se vou desenhar um fato banal, simples, uso o quadro simples. Se quero mais destaque para uma ação, mostrar mais cenário, etc, vou para o quadro duplo ou triplo. Já quando tenho mais tempo pra explorar possibilidades visuais na história, como em Mulheres e Pescadores, passo a variar mais o tamanho do quadro – o que torna a leitura mais legal, mas me dá uma dor de cabeça enorme na hora de diagramar pro papel.
Veja alguns exemplos de uso dos módulos comuns abaixo:
2) E como fazer algo pro papel que seja bem lido na web?
Pois é, você pode fazer o movimento inverso ao pensar em elaborar a sua HQ. Acho que o primeiro ponto a se atentar é a naturalidade de uso do material, seja papel, seja pixel. Pense no quadrinho impresso: o virar de páginas é tão natural que você não pensa “estou virando uma página, agora virei 30% da página, agora virei 75%, agora virei inteira, agora recomeço a ler a história que parei um milésimo de segundos atrás”. Você simplesmente VIRA a página. Isso quer dizer que o livro/a folha, como interface, se tornou invisível pra você.
Puxe este pensamento de tornar a tua interface invisível para a leitura do quadrinho na web. Ou seja: como fazer que o processo de leitura na web seja tão natural e fácil quanto virar uma página? É aí que entram escolhas importantes, porque uma interface mal escolhida vai acabar prejudicando a leitura da história – e talvez o leitor te abandone na terceira página. Indico minhas opiniões abaixo, que podem contestar a vontade:
a – Formato pergaminho – É o formato que escolhi pro meu blog. Escolhi baseado, em boa parte, nos argumentos do Scott McCloud no livro “Reinventando os Quadrinhos”. Acredito que a barra de rolagem seja um mecanismo tão natural e invisível quanto o virar de páginas com os dedos. Em tablets e celulares, ler um quadrinho em pergaminho é bastante natural também – desloca-se a história pra baixo com um leve movimento dos dedos. E o formato pergaminho pode muito bem, futuramente, ser recortado em páginas menores para impressos. Veja abaixo alguns trabalhos no formato pergaminho:
Mentirinhas / Quadrinhos A2 / Diário de Virgínia
b – Formato ComicPress – É uma plataforma/formato bastante difundido. É utilizado pelos quadrinhos do projeto colaborativo Petisco, por exemplo. O ComicPress é uma plataforma que você instala no sistema para blogs WordPress e ao que me parece, já permite a separação de páginas criando um índice com links para cada página da hq abaixo de cada página de quadrinho publicada. No site do Petisco, a plataforma agrupa, inclusive, quadrinhos de diferentes autores – cada qual com índice separado. Parece uma boa alternativa para coletivos. Com relação a leitura, ainda é um formato que tenta recuperar uma leitura próxima do papel: as páginas são mostradas separadamente e no fim da leitura de cada uma, clica-se numa seta para ir para a página seguinte.
Minha única ressalva ao ComicPress é que o fato de se clicar numa página para ir para outra página interrompe a “invisibilidade” da interface. Quando desci a barra de rolagem o suificiente para ler uma página inteira, eu clico no índice para seguir para próxima e em seguida meu browser mostra uma tela em branco, mostra o header da página e informações de texto e só depois carrega a página nova. Há um movimento também, automático, da tela do browser se deslocar um pouco agressivamente de “baixo” da página para o “topo” da nova página. Esse movimento cria uma rápida desorientação nos olhos (“pra onde eu olho agora?) enquanto carrega a nova página. Acho que o quadrinho na web não pode tirar o poder do leitor de controlar e guiar a leitura – e quando o sistema de publicação faz isso de alguma maneira, me incomoda um pouco.
O ComicPress talvez funcione melhor em telas grandes e não cansa a leitura num primeiro momento, mas pelos motivos citados, eu fico cansado ao ler algo com mais de 40 páginas no ComicPress de uma vez. Por outro lado, a vantagem maior está no fato de que sua HQ já está publicada na web com a separação correta de páginas para se imprimir e levar pra gráfica. Novamente, é questão de escolha – priorizar um meio ou outro.
c – Formato PDF/ebook – Novamente, aqui pensa-se a partir do papel para terminar na tela. Um bom exemplo é o St. Bastard do Raphael Salimena e Leonardo Martinelli, cujo formato simula a leitura do papel no browser. O processo é o de diagramação/criação de uma HQ comum para o papel. Aí tem-se algumas opções – após ter tudo diagramado, sobe-se o arquivo num site como o Issuu, que cria revistas virtuais online. A leitura neste tipo de plataforma me parece interessante e fluída se feita em telas grandes (21 polegadas pra cima). Em telas pequenas me sinto desconfortável – não consigo encontrar um meio termo entre zoom/deslizamento do mouse pela página que me deixe confortável. Uma outra opção é transformar o arquivo em um PDF comum a ser lido em qualquer leitor de PDFs em monitores, celulares, tablets. E, por último, há quem goste do formato .cbr (Comic Book Reader), que apesar de antigo, é bastante comum entre scans de quadrinhos pirateados pela web e me parece permitir uma leitura bem mais natural que ferramentas mais incrementadas.
3) A vantagem da modulação para o quadrinho impresso:
Antes de tudo: um quadrinho pode ser qualquer coisa. Não quero vender a idéia da modulação como a salvação para as webcomics, mas gostaria de levantar algumas vantagens que vejo. A maior vantagem está no fato de o quadrinho modular funcionar bem para o ritmo mais dinâmico de um blog e ser rápido na hora de aplicar os quadros modulares numa página impressa. Também há aquela segurança de que se aquele quadrinho abre fácil no meu blog, abrirá fácil em qualquer blog que o compartilhe futuramente.
Ao preparar o layout para o impresso, não preciso me preocupar em alterar muito o formato de cada quadro, em reposicionar balões de texto. Tudo flui naturalmente. No livro que estou montando, o layout das páginas segue normalmente a disposição de 9 quadros por página. Gosto de histórias com essa disposição e ela aparece em vários autores que curto.
Em alguns casos ainda posso fugir do formato 9 quadros e tentar coisas diferentes. Na diagramação da versão impressa da HQ “Distante“, por exemplo, optei por colocar 4 quadros por página pra conseguir um ritmo de leitura mais lento e um destaque visual para cada quadro da história. Tomei esse cuidado pois gostaria que essa HQ tivesse um pouco mais de destaque perante as outras: foi a primeira HQ do site e deve ser a HQ introdutória do livro. Veja:
Um outro exemplo que é legal levantar é o Beijo Adolescente do Rafael Coutinho. Feito para um projeto de webcomics do Portal IG, Coutinho não teve medo de assumir o formato verticalizado da tira lida em pergaminho e jogou o formato integralmente pro papel. A modulação acontece de forma muito mais natural do que nos quadrinhos do meu blog – você quase nem percebe que é modular – mas repare que a altura dos quadros normalmente é a mesma e as vezes ele agrupa um no outro.

O resultado é um revistão espichado, alto, mas cuja leitura se mostrou tão (ou até mais) agradável que na tela. O único problema é guardá-lo na mochila se quisesse emprestar para um amigo sem amassar. Mas aqui me parece que a escolha de Coutinho foi valorizar o livro como “objeto de luxo” – é um livro bonito, grande e fica bem ao lado daqueles grandes livros de arte.
Ou seja; o formato escolhido indica não só a tua relação com o quadrinho no papel e no pixel – indica, principalmente, a forma que você deseja que ele seja manuseado lá e cá pelo leitor.
4 – Concluindo…
Em resumo: se vai começar sua webcomic agora, pode ser legal pensar um pouco no futuro e ver se o formato dela se adequaria bem a um impresso em papel. Isto é, se você quiser que ela saia em forma de papel um dia. Senão, seja livre e explore o que quiser dos formatos possíveis na web.
Ainda assim, devo dizer que adquiri uma versão pra papel dos quadrinhos da Cátia Ana do Diário de Virgínia e achei a adaptação muito gostosa de se ler, mesmo com as dificuldades/decisões que ela deve ter passado para transformar uma leitura mais aberta e fluída de web em um objeto mais linear que é um livrinho impresso. O ponto é: se quiser um impresso futuramente, decida-se antes. Se você variar nos formatos demais ou se empolgar demais com as possibilidades de animação/interação da web, talvez seu quadrinho não fique tão fácil de adaptar para um livro impresso. Por outro lado, se você começar já pensando em papel e web ao mesmo tempo, você pode chegar num meio termo que funcione de maneira legal para os dois.
É isso!
Semana que vem devo falar um pouco do processo de como pensar a ordenação/agrupamento de tiras e histórias com temas tão diferentes dentro de um mesmo livro.
Um abraço,
Gus Morais








